Nunca entendi as manifestações admiradas sobre “a primeira mulher governadora”, "a primeira mulher presidente da câmara de vereadores”, “a primeira negra deputada”, “o primeiro negro presidente”. Afinal, homem ou mulher, negro ou branco, somos, antes de qualquer adjetivação, seres humanos e cidadãos, com direitos ao que a legislação admite para todos, sem distinção. Então, porque qualquer ascensão que não seja a de um homem branco causa tanta estranheza e admiração, quando deveria ser vista com naturalidade? Notem que é esta estranheza promovida pela maioria dominante que alimenta o racismo, o feminismo e o masculinismo contra a minoria que, por sua vez, faz coro com seus opressores. Faz coro ao festejar com seus pares, à guisa de agradecimento ao seu opressor, por qualquer sucesso ou alcance de representantes de seu grupo alienado e alijado, como se não fora merecido. Parece que não reconhece seus próprios direitos civis e humanos pela conquista, caindo na armadilha de que não são dignos de tais oportunidades.
É dentro deste espírito concessório que se estabeleceram vagas para mulher candidatar-se a cargos eletivos, mesmo que ela não os queira, cotas para negros na universidade, lei-do-boi para filhos de agricultores ascenderem aos cursos de agronomia e outras barbaridades. Tudo isto deveria ser rejeitado por tais premiados, pois ao aceitarem assinam que admitem a sua inferioridade, quando deveriam exigir a sua igualdade e a igualdade de oportunidade.
Em um país onde todos os negros têm que se declarar negros e brancos assinam que são brancos e onde pardos e mulatos podem optar por uma e outra cor, quando lhes interessar, não há como negar que isto só ocorre onde o racismo impera. E que, por ser disfarçado, nunca será extinto, pois ninguém assume extinguir o que não há, fato que alimenta a submissão de grupos minoritários, mas não sem direito à sua cidadania.
O mundo branco brasileiro bateu palma pela posse de um presidente negro nos Estados Unidos. Aplaudiria se fosse nosso o presidente negro?
Outra coisa há que me intriga: por que Barack Obama, um mulato, filho de branco e negro, não é branco? Se não é branco, também não é negro. Disseram-me que ele optou por sua metade negra. Será? Será que a sociedade branca lhe deu chance de optar por sua metade branca, quando naquela sociedade norteamericana basta apresentar traços de negro para ser rejeitado como branco, notadamente na época da meninice de Obama. Assim, não houve outro caminho ao moço que não o de assumir à sua afrodescendência.
Obama, como qualquer outro vencedor só o foi porque creditou em si e reivindicou seus direitos de cidadão e como tal será presidente de todos os da América do Norte, independentemente da etnia, gênero e cor daquela população.
Obama é um homem rico, com dois cursos superiores obtidos nas melhores universidades do mundo, casado com advogada da Havard, ainda mais rica que ele. Qual a admiração e onde está o fenômeno desta vitória?
Brasileiros, fenômeno oferecemos nós. Temos um presidente de origem paupérrima e humilde, das mais humildes, oriundo de uma região alijada de qualquer progresso. Um operário minimamente alfabetizado, esposo de também operária que, pasmem, foi eleito, reeleito e o seria novamente se a legislação permitisse, porque na visão da maioria dos eleitores foi e é o maioral dos presidentes quanto à habilidade em acertar administrativa e politicamente. Se assim é, a isso se devem palmas por esta vitória e sucesso, obtidos sem nenhuma concessão. O cidadão Lula também achou que podia – Yes We Can.